Crescimento acelerado - ESPECIAL DE REDES IINFRAESTRUTURA
Teletime
30/04/2011
DEMANDA POR CAPACIDADE DE BACKHAUL E BACKBONE GERA INVESTIMENTOS EM REDES E PROJETOS CONJUNTOS ENTRE EMPRESAS DE TELECOMUNICAÇÕES
O lançamento das primeiras redes de terceira geração do Brasil no final de 2007 desnudou um problema que passou a ser vivenciado por todas as operadoras móveis: capacidade insuficiente nas redes de backhaul. Isso porque a demanda pelo serviço de banda larga móvel e, posteriormente, pelo acesso em terceira geração através do celular, foi muito superior ao que havia sido dimensionado pelas teles. O resultado é que durante os primeiros meses de serviço a qualidade percebida pelo usuário era péssima, o que levou as teles a reformularem seus planos de dados, criando, por exemplo, um teto de tráfego a partir do qual o usuário começa a trafegar em 2G.
Passados quase quatro anos desse período inicial de ajustes, as operadoras móveis, mais uma vez, e também as fixas, enfrentam basicamente o mesmo problema de outrora. Dessa vez, entretanto, são a explosão do tráfego de vídeo e a grande oferta de conteúdo em alta definição na web que, entre outros, têm feito as empresa:; pensarem em novas formas de levar o acesso ao cliente final com a banda necessária para todas esses serviços.
Um bom termômetro para medir o crescimento dos investimentos nas redes de backbone e backhaul é a venda de cabos de fibra óptica, embora hoje em dia eles também sejam usados no acesso. Segundo dados do CRU Group, empresa de pesquisa britânica, em 2010 íoram vendidos mundialmente 180 milhões de km de fibras ópticas, 38,4% a mais que em 2009. O Brasil representa cerca de 1,1% desta demanda, mas em 2009 esse percentual era de apenas 0,7%, com 1,2 milhão de quilômetros. Esse 0,4 pontos percentuais a mais representa 2 milhões de quilômetros, ou seja, crescimento de 66% em um ano. A estimativada Furukawa, um dos principais fabricantes de cabos de fibra óptica do Brasil, é que esse mercado cresça 15% em 2011.
A necessidade de mais capacidade de rede das teles tem gerado uma grande procura pela infraestura das chamadas carrier de carríers. A Cemig Telecom, por exemplo, orgulha-se de fornecer rede para todas as operadoras que estão Minas Gerais. "Todos que estão em Minas utilizam a nossa rede em algum ponto", afirma Wanderley Maia Filho, superintendente técnico da Cemig Telecom. A empresa, que é uma subsidiária da Cemig Energia, está presente em mais de 40 cidades de Minas Gerais, que representam mais de 70% do PIB do Estado. "Por enquanto estamos em Minas, mas temos a intenção de atingir outros estados a médio e longo prazo", afirma Maia. No Paraná, a Copei Telecom também tem se destacado no fornecimento de capacidade para as operadoras. Inclusive, na visão da empresa, existe uma compomente econômica para que as teles optem por alugar capacidade das carriers de carrier. Antônio Carlos de Melo, gerente de engenharia de transmissão e acesso de telecom da empresa, explica que ao alugar capacidade na rede de terceiros, a empresa não tem o custo de manutenção de uma rede própria. Isso faz com que o EBITDA seja maior, já que as despesas são lançadas como investimentos (Capex).
Além dessa visão contábil, alugar rede de terceiro pode ser mais barato do que construir rede própria. Soma-se a isso o fato de a empresa conseguir em pouco tempo conexão em determinada região que ela demoraria, talvez, anos para construir. "Nosso preço tem sempre o objetivo de tornar desvantajosa a contrução de rede própria pelas operadoras", afirma o executivo. Vale lembrar que ao construir uma rede de fibra, seja metropolitana ou interestadual, a operadora terá de lidar com uma série de contratos de uso de solo urbano, de uso da infraestrutura das empresas de energia e autorizações dos mais diversos órgãos, o que nem sempre é algo fácil de se conseguir.
A Copei Telecom está em processo acelerado de chegar a todo o Paraná com backbone de fibra óptica. Hoje a empresa está presente em 252 cidades, mas pretende fechar o ano que vem com cobertura de 100% do estado, ou seja, 399 cidades. Além disso, a companhia atua paralelamente na contrução de redes FTTH em Curitiba. Hoje toda a rede metropolitana em Curitiba é de fibra óptica, mas a empresa trabalha na construção de uma rede de acesso FTTH, "mais densa e mais estruturada", nas palavras de Antônio Carlos de Melo, em 37 bairros da cidade. 0 objetivo é concluir este projeto até o final do ano.
Recentemente a Copei fez um importante investimento no seu backbone que passa pelas principais cidades do estado, como Curitiba, Ponta Grossa, Londrina, Maringá, Cascavel, Foz do Iguaçu e Apucarana. Segundo Antônio Carlos de Melo, apenas um ano e meio depois de a empresa ter elevado para 10 Gbps a capacidade do seu backbone já era preciso de um novo upgrade. Foi então que a companhia partiu para os sistemas DWDM fornecidos pela Nokia-Siemens Networks. A Copei desembolsou cerca de R$ 7,5 milhões na | aquisição do sistema que vai ampliar a capa- § cidade de cerca de 3 mil km do backbone da s empresa. Segundo dados do Atlas Brasileiro de Telecomunicações 2011, ao final do ano passado a Copei Telecom somava 6,2 mil km de fibras ópticas instalados em seu backbone e outros 10,9 mil km de fibras em redes de acesso em todo o estado do Paraná.
No caso da Global Crossing, outra carrier de carrier, a empresa registrou um aumento de 80% no volume de dados trafegados na sua rede na comparação do quarto trimestre de 2009 com o mesmo período do ano passado. De olho no crescente volume de tráfego gerado pelos vídeos on line, em novembro do ano passado a companhia anunciou a aquisição da Gênesis, companhia especializada na transmissão de vídeos. Para a Global Crossing, esta aquisição oferece oportunidades para atrair novos clientes e expandir a oferta de serviços para mercados que requerem produtos de vídeo de alta performance. Segundo Daniel Ladvanszky, gerente de produto de gerenciamento de rede da Global Crossing, a empresa já está trabalhando para apresentar sua solução para as empresas que vão captar as imagens dos Jogos Olímpicos e da Copa do Mundo e que desejarem transmiti-las via IP.
Compartilhamento
Mesmo tendo as carriers de carries como opção de infraestrutura de backhaul, as operadoras de telecom têm se aliado na construção conjunta de rede. Existem várias iniciativas dessas pelo Brasil, em que cada companhia fica responsável por construir uma parte da rede que depois de pronta será usada por
todas. A empresa que mais tem se dedicado a essa modalidade de investimento é a Vivo. A operadora pretende concluir até o final do ano um backbone de 22,8 mil km dos quais 34% são próprios e o restante virá de acordos de troca de capacidade com outras operadoras (principalmente TIM, GVT, Claro e Embratel). Os dois maiores trechos em construção pela empresa no momento são Brasília-Belém e Belém-Fortaleza.
Originalmente, o backbone nacional deveria estar pronto no começo deste ano, mas há nove meses a Vivo esbarra na dificuldade de conseguir licenças para as obras junto a órgãos do governo, como Denit, Ibama e até a Funai, já que parte da rede passará por reservas indígenas. Se as licenças não forem obtidas até o final de maio, a conclusão desses trechos ficará para 2012, afirmou o diretor de planejamento e tecnologia de rede da Vivo, Leonardo Capdeville. Como parte do backbone nacional a operadora está implementando junto com a TIM pares de fibra conectando Vitória a Salvador. Há também um trecho em construção entre Goiânia e Cuiabá em parceria com Claro, Embratel, GVT e TIM.
Capdeville sugere que toda grande obra nacional deveria levar em conta não apenas seus impactos ambientais, mas também a instalação de equipamentos de telecomunicações. Isso valeria para rodovias, ferrovias, estádios de futebol ou qualquer construção que atraia uma grande concentração de pessoas. Vale lembrar que o Ministério das Comunicações estuda baixar uma portaria exigindo que qualquer nova construção de rodovia ou 1 ferrovia nacional inclua dutos para passagem de fibras ópticas.
Custo compartilhado
A Compuline tem uma rede de 5 mil km entre backbone e redes metropolitanas de última milha. O último trecho construído pela empresa neste modelo foi São Paulo-Belo Horizonte em parceria com a TIM. Este trecho faz parte de um projeto amplo de compartilhamento entre Embratel, TIM/Intelig, Vivo e GVT, que, segundo Fuschini, vai de Norte a Sul do País. "Nós somos pioneiros neste modelo. A operadora procurar um provedor de acesso é um modelo novo no mercado", afirma. Além da construção de backbone a Compuline atua também no fornecimento de última milha. A empresa tem presença local em mais de 120 municípios e, de acordo com o executivo, atua em regiões onde há pouca oferta de rede. "A Compuline está no Oeste da; Bahia, por exemplo, onde há um predomínio da Oi."
Outra empresa oriunda dt» sistema elétrico que tem se tornado um grande fornecedor de rede para as teles é a AES Atimus, formada pela AES Com e pela AES Eletijopaulo Telecom. A companhia atua |em 12 municípios de São Paulo e 9 njo Rio e pretende investir R$ 400 milhSes até 2015 no aumento da capilaridade da sua rede nestes municípios. Emerson Hioki, diretor de engenharia ei tecnologia da AES Atimus, afirmai que o negócio da empresa já é uma modalidade de compartilhamento na medida em (Jue, indiretamente, os custos que a companhia tem é dividido por todos que utilizam sua infraestrutura. Plara Hioki, essa cultura de compartilhamento já existe! na empresa de energia elétrica, a AES Eletropaulo, que sempre teve uma grande demanda das teles e, por isso, em 1998 criou uma empresa de telecomunicações para atuar neste mercado. O executivo afirma que a empresa já está percebendo que a demanda por banda tem aumentado em função da Copa do Mundo e das Olimpíadas. "O grosso ainda não veio, mas1 tudo está sendo planejado e construído agora", afirma ele.
Tecnologia
Do ponto de vista tecnológico surge no mercado mais uma sigla que promete dar mais capacidade às redes de backhual. Trata-se do DWDM PON. A tecnologia inova ao entregar para cada grupo de usuários ou para cada BTS (a ERB da terceira geração) um comprimento de onda (lâmbda) ao contrário do GPON cuja característica é a arquitetura ponto-multiponto que permite distribuir o sinal de uma única fibra-óptica a vários usuários. A tecnologia não está disponível hoje, mas alguns fabricantes garantem que ela pode ser a solução para capilarizar a rede de fibra óptica. "Vai chegar um momento em que as redes de fibra vão migrar para fora dos grandes centros e isso tem de ser planejado agora", afirma Wilson Cardoso, diretor de soluções da Nokia Siemens Networks. O executivo explica que há um limite para a ramificação da planta existente, em função das emendas. Daí, a necessidade de uma nova arquitetura de rede para levar o backhaul em fibra a outras regiões.
Na Alcatel-Lucent, a solução está sendo desenvolvida pelo Bell Labs, o braço de pesquisa e desenvolvimento da companhia. A estimativa é que o produto esteja nas prateleiras por volta de 2014 e 2015. Reinaldo Munhoz, gerente de produto da área de acesso fixo da companhia observa que a migração para o DWDM PON agora pode não fazer sentido para a operadora, uma vez que isso exigiria grandes investimentos e a demanda é, por enquanto, bem atendentida com o GPON. "Ao final deste ano será possível levar 10 Gbps para cada casa com o GPON", afirma.
O mercado foi surpeendido por uma notícia surpreendente. De acordo com um estudo do CPqD, 38% de toda a planta óptica do Brasil apresenta falhas de dispersão de sinal (PMD, ou modo de dispersão de polarização, em português). Em outras palavras, possuem assimetrias p imperfeições que fazem com que as ondas viajem, a velocidades diferentes e a propagação dos pulsos ópticos ocorra deforma aleatória, o que limita a taxa de transmissão de dados nas fibras. Além disso, 46% dessa infraestrutura tem seu sinal enfraquecido ao longotdo cabo por apresentar atenuação acima dos 0,24 decitiéis (dB) por quilômetro, valor mínimo recomendado por prganismos internacionais.
Executivos ouvidos por TELETIME reconhecem que o problema existe sim, mas ele 'seria localizado nas redes de longa distância. "Esse parâmetro de dispersão de sinal não influi mkito no tráfego de sinal óptico nas redes urbanas porque as distâncias são curtas", explica Wanderley Mala Filho, superintendente técnico da Cemig Telecom. Apeser de concordar com o estudo do CPqD o executivo ressalta que as redes de longa distância que a Cemig Telecom usa são boas.
Emerson Hioki diretor de engenharia e tecnologia da AES Atimus também concorda com o estudo do CPqD. "Eu trabalho nesse ramo há muito tempo e isso é uma realidade sim, principalmente para as redes de longa distância", afirma ele. O executivo ressalta que o desafio é ainda maior nas redes internacionais, mais uma vez, devido à distância percorrida pelos cabos.
Daniel Ladvanszky, gerente de produto de gerenciamento de rede da Global Crossing, levanta um outro ponto relacionado ao problema: a terceirização de mão de obra. "Podemos tercerizar a execução da emenda, mas nunca a responsabilidade", diz ele.
Segundo o executivo, para a acelerar a recuperação de um cabo que foi rompido, a empresa trabalha com a chamada "reserva técnica" que é a disponibilização de cabos extras dentro das caixas para substituir rapidamente trechos que venham a ser danificados. No caso do cabo submarino, ele destaca que são feitas medições periódicas para garantir que o nível de atenuação não prejudique os serviços que ali trafegam.