A estatal Companhia Energética do Estado de Goiás (Celg) vai entrar no negócio de telecomunicações. A maior empresa do Centro-Oeste, que faturou R$ 2,98 bilhões em 2007 e estima chegar a R$ 3,2 bilhões em 2008, está ultimando a criação da Celg Telecomunicações e Serviços para formar um tripé de subsidiárias para atender as áreas de distribuição, geração e transmissão de energia, além de telecomunicações. Ao mesmo tempo, está executando um plano de saneamento financeiro da empresa para poder voltar a investir.
O investimento para criar a Celg Telecomunicações e Soluções será de R$ 25 milhões, sendo R$ 14 milhões neste primeiro ano e os R$ 11 milhões restantes ao longo de 2009 e 2010. Em entrevista exclusiva à Gazeta Mercantil, o presidente da Celg, Enio Andrade Branco, afirmou que os recursos para o primeiro ano já estão garantidos e os dos dois próximos serão efetivados com parceiros privados e captações.
A decisão de criar o braço de telecom da Celg foi efetivado na segunda quinzena de abril, depois da aprovação pela Assembléia Legislativa do Estado, para que a empresa explore o mercado corporativo da região de Goiânia e entorno, um mercado de 2,5 milhões de usuários - que representam 42% da população do estado - já no primeiro ano. Nos dois seguintes, a intenção é a de chegar ao total dos 6 milhões de habitantes goianos.
A tecnologia vai permitir que a Celg use a sua própria rede de cabos. O usuário liga o computador ou o telefone diretamente na tomada de luz. "O principal ativo do negócio é o cabo energizado que já está disponível na concessionária de energia", disse Branco.
A nova empresa será uma subsidiária integral de capital fechado da holding CelgPar e vai utilizar a tecnologia Power Line Communications (PLC), que oferece serviços de transmissão de dados, voz e imagens por meio da internet. Segundo Branco, ainda neste mês, o conselho de administração da holding fará uma reunião para aprovar a estrutura da subsidiária e seus mecanismos de atuação. "Depois disso, vamos partir para a capitação de clientes", afirmou o presidente. "Vamos atuar na área corporativa em segmentos como saúde, educação, segurança pública e agricultura, sobretudo em áreas rurais, em que a telefonia não chega a provedores de internet", explicou o presidente da companhia.
A intenção é que a Celg comece a operar com telefone e internet a partir de julho deste ano. A promessa é de um custo até 35% menor do que as operadores convencionais.
A lei que permite a participação de distribuidoras de energia no mercado de telecom é recente, foi publicada do dia 24 de abril deste ano. A empresa é a primeira distribuidora de energia pública a criar a sua empresa de telecom. Uma tecnologia semelhante está sendo desenvolvida pela AES Eletropaulo. No momento, a empresa paulista realiza alguns testes na cidade de São Paulo, mas não quis comentar os resultados. Segundo a assessoria de comunicação da Eletropaulo, as provas ainda estão em uma fase inicial e ainda não há dados suficientes para comentar o desempenho. A AES Eletropaulo Telecom é uma das sete empresas da AES Eletropaulo. No total, a Eletropaulo possui sete empresas, sendo cinco de energia e duas teles.
Alongamento da DívidaA Celg está buscando recursos para rolar a sua dívida de curto prazo, que soma R$ 700 milhões contraídos com 22 instituições bancárias. O negócio que está sendo fechado com uma instituição bancária, alonga a dívida dos atuais dois anos para sete anos com dois de carência. Segundo o presidente da empresa, a vantagem são os juros menores que serão negociados com o pagamento adiantado da dívida. "O que nos sobrecarrega hoje é um alto endividamento de curto prazo. Precisamos alongar a nossa dívida até o prazo do fim da concessão, em 2015", avaliou Branco.
O objetivo da engenharia financeira é o de permitir um fluxo maior de caixa e garantir recursos para investimentos. O financiamento de R$ 700 milhões tem três bancos interessados, entre eles o Citibank.
Além desse empréstimo, a Celg busca recursos junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para pagar parte de sua dívida de R$ 1,4 bilhão com fornecedores de energia elétrica. A dívida principal é com empresas do Sistema Eletrobrás. Entre Furnas, Chesf, Itaipu e a própria Eletrobrás chega a R$ 1,1 bilhão. O restante está dividido, principalmente, entre Cachoeira Dourada, que tem R$ 196 milhões para receber, e a Fundação Elétra, dos funcionários da Celg, que tem R$ 32 milhões de crédito.
R$ 1,163 bi a receber
A maior parte dos recursos para pagar o empréstimo do BNDES virá da dívida que o estado de Goiás tem com a distribuidora da Celg. A dívida é de R$ 1,163 bilhão e será repassada para o BNDES. A diferença será paga com as receitas que a própria empresa está gerando. A operação vai viabilizar o recebimento por parte da Celg do pagamento de R$ 165 milhões de subsídios do programas para baixa renda e "Luz para Todos" que a empresa aguarda receber a cerca de dois anos.
Como contrapartida para o BNDES, a proposta que está na mesa é a de entregar parte dos créditos que a Celg possui para o banco em troca dos recursos, a exemplo do que fez a distribuidora catarinense Celesc. Esta negociação, envolvendo o BNDES e o BNDESPar, está em curso desde janeiro deste ano. A idéia é a de fazer uma operação de securitização em que a Celg entregue o crédito que tem com o estado de Goiás para o BNDES, que passaria a ser o credor do estado.
Ações em bolsa
Também está em estudo dentro do banco de fomento uma capitalização da BNDESPar na Celg, que teria uma fatia do capital da empresa goiana. Com a capitalização, o BNDESPar entraria como sócio na holding, mas o controle acionário seria mantido pelo estado de Goiás. Além desse negócio, a Celg estuda o lançamento de produtos no mercado, como capitação de cédulas bancárias ou lançamento de debêntures. Com a capitalização, a Celg pretende ter ações na bolsa. "Estamos nos preparando para irmos ao novo mercado da Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) no ano que vem, quando pretendemos colocar 25% de nossas ações no mercado", disse o presidente. Hoje, 99% das ações ordinárias da Celg estão nas mãos do estado e o restante dividido entre a Eletrobrás, com 0,69%, e os outros 0,31% entre 240 acionistas minoritários.
Novos Investimentos
Os novos investimentos contemplam as três áreas de atuação da holding. A Celg Distribuição de Energia, Celg Geração e Transmissão e a Celg Telecom e Soluções. Com os recursos do fluxo de caixa e da capitalização, o presidente da Celg pretende investir em novas linhas de transmissão e na geração de energia.
A Celg Geração e Transmissão produz apenas 18 megawatts (MW) oriundos de três Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH), mas o projeto é o de elevar a geração para 200 MW, até o final de 2010, fazendo o percentual de participação da geração de energia saltar dos atuais 1% para 14% dos negócios da Celg.
Esse aumento de geração atenderia a demanda energética da Celg Distribuidora (que hoje compra fora a energia que precisa e reduziria custos), ajudando na recuperação da empresa.
"Esses investimentos em geração irão descomprimir o nosso caixa, porque hoje precisamos comprar a energia que consumimos do mercado", afirmou Branco. A Celg Geração e Transmissão foi criada em setembro de 2006, por exigência da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que não permite que a mesma empresa faça a distribuição e a geração e transmissão da energia.
Equilíbrio econômico
A recuperação financeira da empresa está em curso. O enxugamento administrativo reduziu em R$ 91 milhões a dívida no último exercício. A geração de caixa operacional de 2007, medida pelo Ebtida (resultado da arrecadação líquida) passou de R$ 225 milhões negativos para R$ 296 milhões positivos.
Segundo o balanço patrimonial da empresa do ano passado, o prejuízo passou de R$ 267,8 milhões em 2006 para R$ 176,9 milhões em 2007. De acordo com o presidente da companhia, a meta de reequilibro econômico e financeiro da empresa é o de dezembro deste ano. "O desafio é mostrar que uma empresa de capital público pode ser eficiente com uma administração profissional", afirmou o executivo.
Modelo privado
A Celg foi pioneira na reforma administrativa que agora começa ser implementada em toda a administração do estado. A intenção do governo é o de criar uma gestão com modelo da iniciativa privada para os órgãos estaduais. Na Celg, o processo começou com mudanças no conselho da empresa. Dos nove conselheiros, cinco são do governo, incluindo o presidente da holding, e os outros quatro são de representantes dos acionistas minoritários, um representante da Eletrobrás, que também é acionista minoritário, um dos funcionários da empresa e outro dos usuários. Hoje esta vaga está com a presidente da Associação das Donas de Casa. Branco avisa que já tem uma cadeira guardada para o BNDES/BNDESPar, tanto para o conselho administrativo quanto para o fiscal. (Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 1)(Rivadavia Severo)
