Internet na tomada
Após um período de ceticismo, avanços na transmissão de dados pela rede elétrica podem levar a tecnologia ao estágio comercial no Brasil
Valdir Carniel
Onipresença: rede elétrica tem enorme alcance
Por Ricardo Cesar
EXAME
Sem a avenida principal e seu entorno, onde está concentrado o comércio, o que sobra da pacata e ensolarada Barreirinhas, no Maranhão, são ruas de terra e pousadas espalhadas por cada esquina. A cidade é a porta de entrada dos Lençóis Maranhenses, e toda atividade econômica, dos bares ao artesanato feito da palha da palmeira de buriti, gira em torno do turismo. Até o final de 2007, a tranqüilidade de seus 45 000 habitantes será chacoalhada pela ampla disponibilidade de conexão à internet em alta velocidade, serviço ainda escasso por lá. Com um detalhe: o acesso à web ocorrerá pela rede elétrica da cidade. Trata-se da segunda etapa de uma iniciativa que já tem dois anos, mas cuja versão inicial, a despeito da publicidade que recebeu, teve alcance para lá de modesto. Apenas uma escola, um posto de saúde e a unidade local do Sebrae foram conectados. A idéia agora é levar a internet a 150 pontos e criar a Vila Digital de Barreirinhas -- uma cidade completamente online em pleno interior maranhense. Orçado em aproximadamente 1 milhão de reais, o projeto é coordenado por uma associação nacional que reúne empresas de serviços públicos, conta com o apoio da companhia de satélite Star One e deve ser amparado por financiamentos da Eletrobrás e da Eletronorte, ainda pendentes de aprovação. Além de ser um esforço de inclusão digital e uma boa oportunidade de marketing para os envolvidos, a iniciativa também é uma prova de que a tecnologia de transmissão de dados pela rede elétrica conhecida como PLC, sigla de power line communications, está de volta.
É comum descobertas tecnológicas serem anunciadas com grande estardalhaço, apenas para que entraves técnicos ou comerciais reduzam o que seria uma revolução a outra idéia engavetada. Também acontece de, um pouco mais à frente, o mesmo conceito ressurgir com alguns ajustes e finalmente deslanchar. Foi assim com os mecanismos de busca na web, que vieram e se foram às pencas no final dos anos 90 -- quem não se lembra do americano AltaVista e do brasileiro Cadê? --, até que o Google transformou uma atividade desacreditada em um negócio que vale mais de 100 bilhões de dólares em bolsa. Agora, algumas empresas e investidores estão de dedos cruzados para que essa trajetória se repita com a PLC, que existe há uma década e nunca conseguiu justificar na prática o entusiasmo que desperta na teoria. No Brasil, os primeiros projetos desse tipo começaram há pelo menos cinco anos. Funcionaram, mas não convenceram. As tentativas iniciais de oferecer internet pela rede elétrica mostraram que o serviço era instável e caro. A tecnologia, porém, não parou de evoluir. Recentes aprimoramentos elevaram a velocidade de tráfego de dados para até 200 Mbps, ou centenas de vezes mais do que um serviço residencial básico de banda larga.
O principal atrativo é aproveitar uma estrutura já disponível e que tem enorme capilaridade: 98% dos lares do Brasil são servidos pela rede elétrica. No ano que vem, a Eletropaulo Telecom, braço de telecomunicações da distribuidora de energia, planeja fazer testes em massa em alguns bairros de São Paulo. "Acreditamos que, dentro de um a dois anos, teremos condições de lançar o serviço comercialmente", diz Gilberto Cardoso, diretor da Eletropaulo Telecom. A PLC também é promissora para uso interno das empresas, já que não é preciso operar um serviço público de telecomunicações nem reunir os investimentos necessários para atender cidades ou bairros inteiros. Em um edifício que adota PLC, qualquer tomada transforma-se em um ponto de rede. Algumas pequenas companhias especializadas oferecem esse tipo de serviço no país. É o caso da Integradores, que realizou dois projetos nos últimos seis meses. Para a Colortronic, fornecedora de serviços de impressão digital com sede no Rio de Janeiro, a Integradores montou o sistema de telefonia, as câmeras de vigilância e a rede de computadores sobre a infra-estrutura elétrica, aproveitando a mudança da empresa para um edifício térreo de 2 000 metros quadrados.
Apesar dos avanços, ainda há dúvidas sobre até que ponto a PLC será um bom negócio como serviço público. Uma das preocupações é a instabilidade do sistema, que pode sofrer interferência de aparelhos eletrodomésticos. Outro desafio é garantir custos competitivos. Em junho de 2005, a Energias de Portugal (EDP), empresa portuguesa que atua na área de produção e distribuição de energia, iniciou a oferta de internet pela rede elétrica. O pacote, que reunia conexão de 2 Mbps e telefonia, custava cerca de 30 euros; com 5 Mbps, o preço subia para 45 euros. Há dois meses, a EDP anunciou que vai desistir do negócio. "Não tivemos problemas de qualidade técnica, mas a margem de lucro era pouco interessante", diz José Aguiar, engenheiro da EDP. Além disso, a internet também começa a vir pelo ar, por meio de tecnologias de transmissão sem fio, como Wi-Max. É mais uma opção para os consumidores -- e mais um desafio para quem investe na oferta de PLC.
Prós e contras da PLC
A tecnologia de transmissão de dados pela rede elétrica tem características únicas — para o bem e para o mal
Vantagens Desvantagens
Aproveita a enorme capilaridade da rede elétrica, presente em 98% das residências brasileiras e que permeia todos os cômodos e divisões de qualquer edifício Embora os resultados das pesquisas feitas sejam contraditórios, alguns testes apontam interferência de eletrodomésticos ligados na rede elétrica, o que leva a qualidade da transmissão a oscilar
Rapidez de instalação, já que dispensa a passagem de novos fios e cabos. Exatamente por isso, também evita a necessidade de reformas ou obras O custo para oferecer a PLC como um serviço público ainda precisa cair para que o uso em larga escala se mostre comercialmente atrativo
Velocidade de transmissão.A segunda geração de PLC alcança até 200 Mbps, ou 20 vezes mais do que a primeira geração da tecnologia obtinha Enquanto a PLC não amadurece, surgem novas tecnologias, como as redes Wi-Max (que oferecem internet sem fio em alta velocidade), que podem se firmar rapidamente no mercado