Quando assumiu a direção geral da Eletropaulo Telecom, em agosto do ano passado, a engenheira elétrica Teresa Cristina Querino Vernaglia recebeu como missão não apenas estruturar a operação da nova empresa, mas também apagar o estigma de que se tratava de uma utility.
Uma tarefa não tão fácil quanto possa parecer inicialmente, porque a empresa é co-irmã da Eletropaulo Metropolitana – dona da rede elétrica de São Paulo – utiliza a mesma marca, que é muito forte na região metropolitana, e tem o mesmo controlador, a norte-americana AES Corp.
Mas esse não é o único problema da executiva de 35 anos, solteira, que iniciou sua carreira na NEC em 1988, na área de dados e sistemas. Ela tem que manter sua empresa num mercado aberto, que caminha para fusões e que se torna cada vez mais competitivo. Precisa estar pronta para conduzir a empresa para o Serviço de Comunicação Multimídia (SCM) ou de telefonia fixa (STFC). E aí, para deixar o papel de Serviço Limitado Especializado (SLE) terá de decidir qual é a melhor opção, continuar como uma carrier de carrier ou passar a atender o mercado doméstico e corporativo, competindo diretamente com seus próprios clientes.
Enquanto a estratégia vai sendo delineada, Teresa pode pensar em como renegociar os preços dos postes com a Metropolitana e obter uma vantagem que possa repassar aos clientes para ser mais competitiva. Para isto, precisa da conclusão das análises da ABTA (reúne as empresas de TV por assinatura e de telecomunicações) e Aptel (das concessionárias de gás, energia e água).
Em termos de desempenho, a executiva diz que está tranqüila. A Eletropaulo Telecom é uma empresa enxuta para sua estrutura de quase 2 mil km de rede de fibras ópticas, com 80 funcionários. Poderá ser lucrativa a partir deste ano, apesar de ter entrado em operação em 2001, e amortizar em dez anos os investimentos de US$ 30 milhões feitos em toda a rede ao longo de três anos.
Teresa recebeu TELETIME para conceder a entrevista, cujos trechos divulgamos a seguir:
TELETIME – Por que é tão importante tirar o estigma de que a Eletropaulo Telecom não é uma utility?
TERESA – Porque nós prestamos o serviço de telecomunicações e queremos ser reconhecidos como uma empresa de telecomunicações que tem um grupo de profissionais desse ramo, que entende as necessidades dos clientes – as operadoras de telecomunicações. E isso é fundamental para que os nossos clientes também nos vejam como uma empresa que tem expertise, porque energia é um nicho de mercado; telecomunicação é outra atividade. Como nosso nome é Eletropaulo Telecom, e o nome Eletropaulo é muito forte, a primeira impressão que fica é de que a Eletropaulo é uma empresa de energia que entrou na área de telecomunicações. Mas somos uma empresa independente da Eletropaulo Metropolitana. É um outro CNPJ. É uma administração diferente. E, na verdade, a Eletropaulo Metropolitana é um cliente da Eletropaulo Telecom.
TELETIME - Como é o acordo para uso da rede da Eletropaulo Metropolitana?
TERESA - Utilizamos o direito de passagem através de um contrato para construir nossa rede. O cliente precisa de uma solução final, em que ele tenha serviço de qualidade. Existem duas formas de se fazer essa rede: aérea e subterrânea. Com esse direito de passagem da Eletropaulo Telecom, construímos uma rede aérea, utilizando os postes, ao invés de subterrânea, que é bem mais complexa.
TELETIME - A infra-estrutura é toda de fibras?
TERESA - A nossa rede é 100% fibra óptica – 90% aérea e 10% subterrânea. É subterrânea na Av. Paulista, onde não tem a rede aérea, e no centro da cidade.
TELETIME - Qual é a abrangência dessa rede e quanto por cento ela atinge?
TERESA - A Eletropaulo Telecom atua na área metropolitana de São Paulo. São 24 municípios, incluindo a cidade de São Paulo, com 1,8 mil km de fibra. Sem dúvida, é uma das maiores redes contínuas de São Paulo, o que nos dá uma vantagem para oferecermos uma solução fim-a-fim, sem necessariamente ter de fazer uma composição de várias redes. Quando se faz uma composição de várias redes, eventualmente pode ocorrer uma queda na qualidade do serviço. Porque são várias empresas juntas para dar solução fim-a-fim para este cliente.
A grande vantagem da Eletropaulo Telecom com uma rede dessa extensão, 100% óptica, extremamente confiável, é que temos condições de garantir os níveis de qualidade que o mercado exige hoje, num mercado tão competitivo como é o dessas prestadoras de serviços.
TELETIME - Quanto vocês pagam à Eletropaulo Metropolitana pelo uso do poste?
TERESA - Os preços que pagamos são acima do que hoje vem sendo pleiteado no mercado: em torno de R$ 5 a R$ 6 por poste.
TELETIME - E por que, pertencendo à mesma controladora, vocês pagam esse valor?
TERESA - Porque esse contrato foi feito há três anos e esse é um valor reajustado ao longo dos últimos dois anos. Foi um preço que a Metropolitana estipulou através da análise que fez para saber qual era o valor daquela infra-estrutura.
TELETIME - Se as operadoras conseguirem preços menores vocês pedirão isonomia?
TERESA - Certamente. Como atualmente estamos pagando e temos contrato, se eventualmente esse preço for diferente, a gente estaria dentro desse processo para rever os preços também.
TELETIME - Os custos com infra-estrutura representam quanto por cento dos custos de operação da Telecom?
TERESA - Dentro dos custos operacionais representam em torno de 30%. É um custo elevado.
TELETIME - O investimento na tecnologia powerline telecommunications (PLC) nas redes elétricas está sendo feito pela Metropolitana? Qual é a participação da Telecom nesse processo?
TERESA - Hoje, quem está tocando esse projeto é a Eletropaulo Metropolitana, porque é uma tecnologia em cima da rede elétrica, e ela vem fazendo trials utilizando essa tecnologia. Nós estamos acompanhando o processo (leia mais sobre o assunto à pág. 30).
TELETIME - A Metropolitana e a Telecom concorreriam nesse tipo de serviço?
TERESA - De certa forma. Esse trial ainda está muito embrionário. Não sabemos ainda como isso vai avançar, entrando no mercado de massa; se essa tecnologia vai dar volume na rede elétrica, porque a rede elétrica tem uma série de características. Nós estamos conversando, mas a modelagem do negócio não está definida.
TELETIME - Após a Metropolitana concluir o trial, a operação da rede poderá ser transferida para a Telecom?
TERESA - Essa é uma possibilidade, a operação da rede feita pela Eletropaulo Telecom. Mas não há nada definido. Primeiro, é preciso avaliar a tecnologia para depois identificar como será o negócio em si.
TELETIME - Quais são os principais serviços que vocês vêm oferecendo agora?
TERESA - A Eletropaulo Telecom é uma empresa provedora de acesso. Não temos serviço de valor agregado na nossa rede. Em função disso, não temos nenhum conflito de interesse com os nossos clientes.
TELETIME - Existe a possibilidade de vocês proverem outro tipo de serviço, incluir valor agregado?
TERESA - Nós temos essa possibilidade. E isso é uma análise que estamos fazendo. Mas isso é um processo que está em decisão e análise, e não se transformará em serviço efetivo antes de um ano.
TELETIME - De que depende a oferta desses serviços e quem é o público-alvo?
TERESA - Depende única e exclusivamente da implantação de uma plataforma tecnológica na rede óptica, que pertença à Eletropaulo Telecom, que permita prover algum tipo de serviço agregado nessa rede, como dados e voz. Ainda não definimos o público.
TELETIME - A Telecom tem contratos de compartilhamento de infra-estrutura com clientes ou só vende acesso?
TERESA - Nós vendemos o serviço de acesso. Temos a fibra com os eletrônicos nas pontas e o gerenciamento. Esse é o nosso produto. Nós não vendemos a fibra.
TELETIME - Já houve uma definição em pedir licença para migrar para o Serviço de Comunicação Multimídia (SCM) ou de telefonia fixa (STFC)?
TERESA - Como SLE, o que se apresenta mesmo para nós é o SCM. A licença do STFC significa a Eletropaulo passar de uma provedora de acesso a uma operadora local de voz. É outro negócio. Nada impede que a gente solicite, mas isso denotaria uma mudança no negócio da Eletropaulo, que hoje não está previsto. Estamos avaliando as duas possibilidades.
TELETIME - Como está a implantação da rede da TIM?
TERESA - É uma rede bastante extensa em São Paulo. A TIM está sendo uma das primeiras empresas que está fazendo uma implantação de uma rede já em fibra óptica. Nós fazemos toda a interligação de suas estações radiobase na nossa área de atuação.
TELETIME - Qual é o prazo para conclusão de todos esses acessos?
TERESA - Existe um cronograma definido e estabelecido pela TIM, que está implantando no interior de São Paulo também. É um prazo bastante reduzido, pela própria necessidade da TIM ter rapidamente o sistema pronto para oferecer o serviço na região. O projeto é por etapas.