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Revista TELETIME 61 - Entrevista com Teresa Vernaglia sobre Privatização
 

Deu certo. Mas e agora?

Sérgio Damasceno

 

Como evoluíram os serviços de telecomunicações no Brasil nos cinco anos após a privatização? E agora, quais são as metas para o futuro? TELETIME ouviu cerca de 30 dirigentes de operadoras, fornecedores, prestadores de serviços limitados especializados, empresas de satélites e de soluções de sistemas de suporte à operação para opinarem sobre esses temas. Os executivos aprovaram a privatização do setor, mas apontaram algumas necessidades: estimular a competição na telefonia fixa, elevar o nível de qualidade de serviço, acelerar os processos regulatórios e preencher as vagas pendentes na Anatel. Falar de planejamento para os próximos anos, embora este seja assunto obrigatório nos business plans, não animou os entrevistados. Pelo tom da maioria, não dá para planejar um futuro seguro sem que grandes questões para o setor sejam antes solucionadas. O importante é equacionar a crise atual, pois a estrada do futuro depende da pavimentação do presente. Este é o recado.

OPERADORAS - Nem consenso nem competição

Não há consenso entre os operadores de telefonia fixa. Para alguns falta a ação efetiva do órgão regulatório para impor um ambiente competitivo de fato. Para outros a competição ocorre sim, mas entre as fixas e as móveis, e apenas no segmento voz.

"Não houve crise", garante o vice-presidente da divisão de telecomunicações da Algar, Lourival Jorge Teixeira, ignorando os percalços por que o mercado mundial vem passando nos últimos anos. Os investimentos que começaram em US$ 4 bilhões ao ano em 1998 subiram para US$ 7 bilhões em 1999 e atingiram o auge - US$ 20 bilhões - entre 2000 e 2001. Mas a curva de crescimento foi impulsionada por alguns fatores: disponibilidade do mercado em investir em telecomunicações, antecipação de metas e expectativa com a internet. Lourival acredita que o mercado agora está normalizado e voltou aos níveis históricos, entre US$ 7 bilhões

Contudo, a longo prazo, o executivo diz que o futuro do setor está na multimídia, e o e US$ 8 bilhões anuais.

O vice-presidente da Algar destoa do discurso geral quando o assunto é competição local, porque acredita que isto já ocorre entre a telefonia fixa e móvel para o segmento de voz: "Em municípios pequenos temos pelo menos uma operadora móvel da banda A, outra da banda B e mais a fixa. Em grandes cidades, chegamos a ter até seis opções."desafio será garantir sua universalização, por envolver vários setores, inclusive a distribuição de renda, o que permitiria acesso popular ao computador.

Alain Rivieri, vice-presidente de assuntos regulatórios da Intelig Telecom, concorda que as obrigações de universalização no Brasil amenizaram a crise em relação à Europa e aos EUA. "Se a economia não superar o ritmo de crescimento de 1% ao ano, teremos problemas", alerta.

As empresas-espelho esperam a estabilidade do modelo, mas isto poderá não ocorrer a tempo de garantir uma sobrevida independente da troca de controle. Para o presidente da Vésper, Luiz Kaufmann, se o governo e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) garantirem as condições que viabilizem a competição prevista na Lei Geral de Telecomunicações (LGT), o resto será feito pelo próprio mercado. A GVT, por exemplo, recentemente anunciou a intenção de investir mais R$ 3 bilhões no Brasil, isto é, o compartilhamento de redes, a portabilidade e o unbundling, entre outras demandas. A Vésper é vítima da falta de competição. Está em pleno processo de venda para a Embratel.

Eduardo Micollis, diretor de vendas e principal executivo da PanAmSat do Brasil, chama a atenção para o fato de que a agência norte-americana, a Federal Communications Commission (FCC), existe desde 1934 e nem por isso deixa de cometer equívocos.

INDÚSTRIA - Carga tributária atrapalha

A alta carga tributária, que pode chegar a mais de 40% em alguns Estados, é um dos grandes entraves à continuidade da evolução do setor, avaliam os fornecedores. Cautela é a norma para eles e o otimismo, se vier, ocorrerá no mínimo daqui a um ano.

O vice-presidente de telecomunicações da Siemens, Aluizio Byrro, enumera três pontos principais a serem abordados: regulamentação, política industrial e exportações. É preciso, diz o executivo, buscar a estabilidade do quadro regulatório; aplicar o Fundo para a Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) e o Fundo de Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações (Funttel) para universalizar; rever a política tarifária; e definir a política de recursos humanos para a Anatel.

"A competição se desenvolve de uma forma inesperada pela atuação das operadoras móveis e poderá tornar-se um dos grandes aliados dos usuários na regulação dos preços da telefonia local", afirma Byrro.

Além da estabilização macroeconômica e da evolução do marco regulatório, o esforço deve ser voltado para maximizar o investimento realizado até agora - na infra-estrutura para expansão e na melhoria da planta básica, avalia o presidente da Iqara Telecom, Fernando Mello. Mas o diretor de vendas da New Skies Satellites para a América Latina e Caribe, Jurandir Pitsch, é um pouco mais reticente: "Acredito que o mercado só volte à normalidade, com crescimento moderado, nos próximos 12 a 18 meses." Seu argumento é que os clientes continuam readequando os custos e, portanto, não investirão tão cedo.

 

EMPREGO - Baixo entusiasmo na retomada

Uma das poucas conclusões unânimes a que chegaram alguns líderes do setor é que a alta geração de emprego, como ocorreu de 1998 a 2001, acabou, o que é uma péssima constatação. As contratações em larga escala não serão retomadas. O único ramo que anima os executivos é o de call center. Somente as dez maiores empresas do setor somavam 47,8 mil posições de atendimento até outubro.

O presidente da Qualcomm, Marco Aurélio Rodrigues, não acredita em aumento de emprego sem a retomada dos negócios e o investimento das operadoras. "Soluções artificiais somente criarão mais dificuldades", diz.

Ainda que os fornecedores tenham perspectivas quanto à demanda por banda larga, redes metropolitanas, Wi-Fi e telefonia IP, o executivo Vicente Mello, do conselho de administração da Trópico, é incisivo: "O restabelecimento dos postos de trabalho que foram cortados desde julho de 2001 será fruto do efetivo retorno do setor ao crescimento sustentado."

A criação de novas vagas está diretamente vinculada ao aumento do consumo interno, diz o presidente da Motorola, Luis Carlos Cornetta. O que, neste caso, significa uma ação direta do governo federal em relação à macroeconomia.

Argumento similar tem o diretor geral da Promon Tecnologia, Rodrigo Abreu, para quem a precondição é a retomada do crescimento do País.

A diretora geral da Eletropaulo Telecom, Teresa Vernaglia, opina que a recriação de empregos será lenta. Mas acredita que existem duas possibilidades para que isso aconteça: criação de um grande número de pequenas empresas especializadas que complementem as necessidades dos usuários e o desenvolvimento de soluções, redes e serviços para as populações de baixa renda.

"É preciso ser realista: não existem recursos para acelerar o atendimento à baixa renda. Sem criar uma solução de baixo custo de implantação e manutenção não é factível um atendimento expressivo de cada residência por uma linha básica. Isto não mudará em 2006, independentemente da renovação dos contratos", afirma Teresa.

Ainda que a onda pessimista paire sobre o setor, os executivos identificam pequenas ilhas que estão se desenvolvendo. É o caso principalmente da expansão da banda larga e fornecimento de serviços (dados para as pequenas e médias empresas; ringtones e games; Wi-Fi e IP).

Outra solução apontada é a oferta de serviços fixos mais baratos para as classes D e E, inclusive com o pré-pago. Para empresas como Furukawa e Nortel Networks, a redução de custos de determinados produtos os torna potencialmente atraentes. Hervé Adam, presidente da Nortel, enxerga aumento na demanda móvel (com as redes 3G) e fixa (com as redes de próxima geração - NGN).

Segundo o CTO da CSG Systems, Birger Thorburn, o mercado logo atingirá sua maturidade e, quando isso acontecer, as empresas terão novamente que preocupar-se com os lucros e o índice APPU (que é o lucro anual por usuário), e não somente com a receita: "Os atuais cortes nos investimentos são válidos a curto prazo, mas nenhuma empresa permanecerá líder de mercado, a menos que explore as tendências do setor."


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