Datas como Dia das Mães, Dia das Crianças e Natal eram um tormento na Associação de Comércio Municipal de Santo Antônio da Platina, no Paraná. Bastava uma parte dos 42 mil moradores decidir fazer compras a prestações para a paciência da equipe ficar por um fio. 0 problema não era a média de 100 ligações diárias de consul-tas de crédito, mas a lentidão da internet. Distante 370 quilômetros de Curitiba, o município é fraco em conectividade. Apenas 2 500 pessoas têm acesso ao serviço de banda larga prestado por uma única operadora. Uma possível solução surgiu em março. Veio pela tomada, com velocidades de até 10 mega-bits por segundo. Essa taxa de transferência é dez vezes maior do que os atendentes da associação estavam acostumados a usar. Junto com outros 300 moradores, eles estão participando dos testes da Companhia Paranaense de Energia Elétrica, a Copel, com acesso à internet pela rede elétrica.
Embora a tecnologia não seja novidade para as companhias de energia elétrica, agora a internet pela rede elétrica (que recebe o nome de Broadband Power Line, ou BPL( pode atingir até 200 Mbps. 0 percurso dos bits pelos cabos elétricos é semelhante ao caminho na rede telefônica. Como na tecnologia ADSL, o sinal da Internet também passa por uma espécie de modem, batizado de head-end ou mas-ter, antes de chegar à rede de alta tensão. De lá, ele é transportado na faixa de frequência que vai de 1,8 MHz a 38 MHz. Apesar de a energia viajar numa onda de 60 Hz e não interferir no sinal de internet, ele pode se enfraquecer no caminho. Para compensar a perda de potência, é preciso usar repetidores que reforçam o sinal até a chegada às tomadas das residências. Lá, um modem faz a ponte da internet para o computador. Nos testes, os resultados têm agra-dado às pessoas. "Não foi necessário furar paredes ou passar cabos. Só colocamos o modem na tomada. Na hora, a internet começou a funcionar", diz Rodrigo Teixeira, secretário-executivo da Associação de Comércio Municipal de Santo Antônio da Platina.
Rede abrangente
A simplicidade da instalação, aliada ao fato de que a rede elétrica alcança 98% do território nacional, tem deixado muita gente entusiasmada com a nova opção de acesso. "Há lugares no Brasil, como Belém, no Pará, em que as outras redes não funcionam bem, e outros a que elas nem chegam", diz Thienne Johnson, pesquisadora da Universidade de São Pau-lo (USP). "Essa pode ser uma alternativa barata e com qualidade para essas regiões", afirma ela.
Os principais passos burocráticos para que a internet por rede elétrica seja realidade já foram superados. Depois de pelo menos cinco anos de testes e discussões, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatei) definiu, em abril, as regras para a operação do serviço. No final de agosto foi a vez de a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) regulamentar o serviço. A esperança é que a BPL democratize o uso doméstico da internet, chegando aos 129 milhões de pessoas que não têm acesso à rede em casa.
Nos Estados Unidos, a tecnologia foi autorizada em 2004. Mas só agora empresas como a IBM apresentaram planos para alcançaras áreas rurais. 0 rnotivo para a repentina ressurreição do interesse pela tecnologia são os investimentos de mais de 4,5 milhões de dólares em projetos de expansão da rede de banda larga, determinados pelo presidente Barack Obama. A companhia International Broadband Electric Communications (IBEC) oferece pacotes com velocidade de 256 Kbps a 3 Mbps para regiões de vazios demográficos com até três domicílios por quilômetro quadrado. Os preços variam entre 30 e 90 dólares.
Interferência
As principais dúvidas em relação à BPL são quanto a interferência que os aparelhos elétricos exercem sobre ela. Lâmpadas fluorescentes, furadeiras, batedeiras e outros equipamentos que consomem muita energia estão entre os vilões. Mas, de acordo com Orlando César Oliveira, coordenador do empreendimento PLC da Copel, a instalação de filtros nos disjuntores e tomadas da residência reduz o problema.
Pelas regras da Anatel, antes de iniciar urna operação comercial, as empresas devem fazer urna varredura da área para verificar se há conflito com sistemas de radiocomunicação. "As empresas pre-cisam demonstrar que a BPL não está causando interferência", afirma Marcos de Souza Oliveira, gerente de engenharia de espectro da Anatel. Para impedir que a BPL prejudique o sinal dos equipa-mentos, a prestadora de serviço deve instalar filtros do tipo notch, que impedem a transmissão de dados nas frequências já ocupadas por outros sistemas.
No quesito segurança, a BPL segue os mesmos padrões impostos aos outros sistemas. "Ela se com-porta como a maioria das outras tecnologias de aces-so. A única diferença é o meio", afirma Nicolas Maheroudis, diretor de projetos BPL da Eletropaulo.
No Brasil, além da Copel, a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e a Eletropaulo, que atende a Grande São Paulo, declararam a intenção de oferecer o serviço. A empresa paulista planeja lançar nos próximos meses. Cidades como Barreirinhas (MA), Goiânia (GO), São Paulo (SP) e Porto Alegre (RS) estão testando o sistema. De acordo com os coordenadores dos testes, ainda faltam ajustes. Espera-se que, pela rede elétrica, o acesso doméstico à internet possa dar um salto do patamar registrado no fim de 2008, quando estava presente em 23,8% das casas do país.