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Concorrência de baixa tensão
 

Por Meio e Mensagem - Nacional

 

O preço alto, os entraves burocráticos criados pela regulamentação e a falta de padronização dos equipamentos da última milha (transformadores, interruptores, tomadas e fusíveis, por exemplo) devem neutralizar o eventual choque que o acesso à internet por meio da rede de energia elétrica poderia causar na concorrência com as operadoras de telefonia e de TV paga no fornecimento de banda larga. A tecnologia Broadband over Power Line (BPL ou banda larga via rede elétrica) ou Power Line Communication (PLC) evoluiu desde os anos 90, quando começaram os primeiros testes em várias partes do mundo. No Brasil, a BPL começou a ser debatida no início dos anos 2000. Atualmente, as conexões registram taxas entre 10 Mbps e 200 Mbps, superiores, portanto, à velocidade de 100 Mbps de fibras ópticas.

"Os últimos testes que fizemos foram realizados em 2004. A regulamentação, no final do ano passado, espantou os fabricantes dos equipamentos (modem e ATA dispositivo que faz a interface entre redes analógicas e digitais), que não estão muito otimistas com o desenvolvimento dessa tecnologia no Brasil. Por enquanto, apenas estudamos alguma coisa em Belo Horizonte, mas não há nada previsto", afirma o gerente de engenharia da Cemig Telecom, Wanderley Maia. A Cemig é a distribuidora de energia de Minas Gerais. O executivo diz que uma saída possível é que uma operadora (que contrate a infraestrutura, caso da Intelig) ofereça o serviço para o usuário final. "É uma alternativa em função das dificuldades de homologação dos equipamentos. A certificação fica cara para os fabricantes", diz Maia.

"A própria subsidiária de telecomunicações da distribuidora poderá oferecer o PLC, mas ainda assim não há vantagem para a distribuidora", diz o gerente de engenharia de transmissão e infraestrutura de telecomunicações da Copei Telecom (que distribui energia no Paraná), Antônio Carlos de Melo. Pela regulamentação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) Resolução 527/2009 e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) Resolução Normativa 375/2009 -, 90% da receita auferida pela distribuidora com o uso da rede para a oferta de BPL tem de ser destinada à modicidade tarifária. Na tradução: tarifas mais baixas. E se a infraestrutura for contratada por uma operadora, pode haver uma série de problemas com a rede elétrica porque um agente estranho (operadora de telefonia) terá acesso à rede da utility para operar o BPL. Aparentemente, portanto, não compensa explorar o BPL nem com empresa própria e tampouco em regime de aluguel para uma operadora de telefonia.

ENTRAVES
Mas esse é apenas um dos entraves, aponta Melo. Para o gerente da Copei Telecom, a certificação de equipamentos não chega a ser o problema mais imediato. A empresa, que realizou no ano passado um teste de BPL em Santo Antônio da Platina (norte do Paraná), com pouco mais de cem residências, obteve resultados que servirão de parâmetro para um eventual lançamento comercial. E as informações não são nada animadoras: o custo do equipamento, de R$ 6 mil por usuário/residência, é alto demais para o consumidor; e os filtros e equipamentos têm de ser adaptados às casas, que, em geral, estão fora das normas circuitos elétricos exclusivos para BPL, necessidade de instalação de mais um cabo, tensão fora dos padrões etc.
Por fim, a resolução da Aneel impõe às elétricas tantas condições que, praticamente, inviabiliza a atratividade financeira que a oferta de BPL poderia trazer à distribuidora.

A Companhia Energética de Brasília (CEB), como as congêneres de Minas Gerais e do Paraná, não desistiu totalmente da tecnologia BPL. A distribuidora continua a realizar estudos sobre a viabilidade de oferecer o serviço de banda larga pela rede elétrica. No ano passado, segundo informações da empresa, a CEB obteve autorização do governo do Distrito Federal para explorar comercialmente os serviços de telecomunicações, transmissão de dados e imagens, entre os quais se inclui a BPL. A empresa informa que, em breve, será possível oferecer o serviço para os consumidores de energia do Distrito Federal.

No Rio Grande do Sul, desde dezembro de 2006, a Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Grande do Sul (CEEE), em conjunto com a Companhia de Processamento de Dados do Município de Porto Alegre (Procempa), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e o Senai/ RS, oferece no bairro Restinga a internet via PLC. Sistema pioneiro, é o maior em extensão no País, com mais de 3,5 quilômetros. O serviço fornece banda larga a quatro instituições públicas do bairro.

A tecnologia que permite ao consumidor ligar um plug na tomada elétrica e obter o sinal de acesso à web é antiga, mas somente no ano passado a Anatel e a Aneel regulamentaram o assunto. Há anos que a Eletropaulo Telecom, a Copei Telecom, a Cemig Telecom e outras elétricas têm feito testes com BPL.

Primeira oferta
Por conta de todos esses obstáculos, apenas recentemente a BPL transformou-se em realidade no Brasil. A Intelig Telecom, adquirida pela TIM em 2009, lançou o primeiro pacote comercial de banda larga via rede elétrica e mais telefonia fixa no País, em uma parceria com a AES Eletropaulo Telecom, subsidiária de telecomunicações do Grupo AES. Porém, ao contrário do que se poderia esperar, dificilmente haverá uma popularização em massa de acesso à internet por energia elétrica. Pelo menos a médio prazo. Com um pacote do tipo combo (telefonia e banda larga), a oferta da Intelig, inicialmente, está disponível apenas para os bairros paulistanos de Moema, Pinheiros e Jardins. Os pacotes de banda larga pela tomada prevêem conexões de 5 Mbps, 10 Mbps e 15 Mbps.

A expectativa da operadora é conquistar, em seis meses, 30% de um mercado potencial de 18 mil residências nesses bairros. Por ora, a expansão para outras regiões depende da demanda do usuário. "Temos conversado com a AES Eletropaulo para avançarmos nessa estratégia. Por enquanto, atingimos a meta do primeiro mês", afirma o diretor comercial da Intelig Telecom, Alexandre Torres.

Nesse intervalo, a publicidade da banda larga pela tomada em São Paulo é bastante restrita: limita-se à distribuição de folhetos entre os edifícios dos três bairros em que a tecnologia está disponível e a explicações de técnicos da Intelig para potenciais clientes que se interessarem por esse tipo de acesso.

De acordo com o diretor, a AES Eletropaulo fez a oferta de parceria e a Intelig aceitou porque a tecnologia BPL da elétrica é um pouco diferente: a AES Eletropaulo tem uma rede de fibra óptica, "no mesmo nível das redes de telecomunicações", que cobre as regiões da cidade de São Paulo e cujos sinais ópticos são transformados em elétricos. "Não há degradação de sinal", diz Torres.

Já dentro dos prédios (indoor), a Eletropaulo fez toda a avaliação da infraestrutura e, durante um ano, testou o serviço. "O cenário (da rede BPL) foi extremamente analisado", afirma o diretor da Intelig. "O serviço é quase FTTH (fiber to the home)", compara Torres. Por enquanto, a limitação da oferta a apenas três bairros de São Paulo deve-se à disponibilidade da infraestrutura. Torres diz que não dá para oferecer BPL massivamente e, depois, não entregar. Mas sugere que, após a reestruturação entre a TEVI e a Intelig, novas sinergias entre a Intelig e a AES Eletropaulo Telecom poderão se concretizar.


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