As empresas envolvidas com projetos de infraestrutura para a Copa do Mundo e Olimpíada no Brasil têm um desafio pela frente: estimar a infraestrutura adequada para atender a todos os participantes dos eventos esportivos, inclusive público, de modo que não falte capacidade de comunicação durante os jogos, mas que as redes possam ser retiradas após o término dos eventos. O tráfego de voz, dados e imagens é extremamente alto durante os dias dos jogos,mas cai drasticamente depois. Nos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008 houve pico de 220 mil chamadas simultâneas somente na abertura do evento. Só para se ter uma ideia, em São Paulo, hoje, são realizadas entre 60 mil e 80 mil ligações simultaneamente, calculam engenheiros do Grupo AES. Casos de obras legadas se tornaram pesadelo para os países que sediam os jogos.
Admirada por sua mitologia e antigos deuses, a Grécia, por exemplo, teve de incorporar "elefantes brancos" ao seu cenário, obras que se mostraram desnecessárias para os esportes nacionais. Mesmo no Brasil, a herança dos Jogos PanAmericanos comprovou que o investimento resultou em desperdício, pelo não aproveitamento das obras legadas.
Em Barcelona, ao contrário, o planejamento se mostrou eficaz.
Após a realização dos Jogos Olímpicos de 1992, a administração aproveitou a infraestrutura instalada para promover a criação de um polo de empresas multimídia, já que haveria folga para o tráfego de imagens e vídeo.
O Brasil tem a oportunidade de fazer um planejamento que possa incorporar novos negócios com a capacidade instalada, diz a diretora-geral das empresas de telecomunicações do Grupo AES, Teresa Vernaglia. Estão sob sua administração a AES Com Rio e AES Eletropaulo Telecom, em São Paulo. As empresas de um modo geral têm estudado o histórico de outros países para desenvolver os projetos que pretendem implantar no Brasil, com o apoio de estudos de consultorias especializadas no tema.
Para o presidente da PromonLogicalis, Eduardo Cardoso, o investimento mais crítico é determinar o nível de infraestrutura de comunicação e segurança que as cidades envolvidas nos jogos precisam.
Em sua opinião, a partir de qualquer ponto das cidades deveria ser possível ter acesso a redes sem fio, além de sistemas de segurança integrados e aeroportos capazes de suportar toda a demanda.
A PromonLogicalis atuou em projetos dos jogos de Londres, da África do Sul e do estádio de Wimbledon, no Reino Unido, em parceria com operadoras.
A AES contratou uma pesquisa para prever o potencial de crescimento do Brasil com o impacto dos eventos esportivos, principalmente nas regiões onde atua. A empresa tem recebido consultas de operadoras internacionais e integradoras que não atuam no Brasil e querem saber detalhes da infraestrutura local, principalmente no Rio e em São Paulo, para a oferta de serviços durante os jogos. Entre essas empresas estão as contratadas pelas emissoras de TV de cada país que farão a transmissão de sinais e querem garantia de que terão acesso físico à infraestrutura e que não haverá falhas. Para isso, exigem até quatro caminhos diferentes por fibra óptica para as mesmas transmissões simultâneas, o que já é comum para emissoras de TV brasileiras, diz Teresa, além de capacidade de banda para transmissão em três dimensões (3D).
Questionam principalmente sobre a qualidade da rede implantada e tecnologia usada. Por antecipação, a Fifa exige que as transmissões sejam totalmente em alta qualidade, ou "full HD". A executiva considera que parte significativa dos investimentos gerais do país para telecomunicação será antecipada para atender a Olimpíada de 2016, o que significa que não haverá sobra de capacidade.
Mas, para isso, deve haver uma política pública, alerta ela.
O trabalho não é fácil, principalmente porque os locais dos jogos ainda não estão definidos.
No caso da Eletropaulo Telecom, sua rede foi projetada para intenso tráfego de dados, na forma de anéis e com redundância. "O desafio maior é ver onde teremos de fazer a expansão", afirma a diretorageral. "Temos equipe dedicada para medir a demanda atual, ver onde estarão os estádios, as praças de festas e os grandes telões multimídia. Isso ajuda a direcionar a engenharia onde tem de se preocupar em fazer o desenho da rede." A Copa das Confederações será realizada em 2013 e servirá de teste para a Copa do Mundo em 2014. Assim, as empresas terão um prazo de dois anos para levar a infraestrutura onde for necessário.
Os executivos consideram o período muito curto, especialmente porque todos terão que executar seus projetos ao mesmo tempo. O receio é que falte mão de obra qualificada para atender a tantas obras. Além das 12 cidadessede, os municípios dos arredores também deverão atrair turismo, o que requer uma expansão da capacidade de comunicação a ser instalada.