Empresas que são afetadas diretamente pela expansão da banda larga, como as terceirizadoras de gestão de infraestrutura para outras organizações e rivais das operadoras telefônicas na oferta de acesso à internet, criticam o modelo adotado por meio da Telebrás e consideram que o incentivo à competição teria melhor efeito.
"Por mais que se possa fazer críticas às operadoras, a privatização (em telecomunicações) é um sucesso, e o desempenho delas é infinitamente melhor que o de qualquer estatal. São mais competentes para explorar os serviços e em entregar a demanda", defende o vice-presidente jurídico da Net Serviços, André Borges. Para ele, em regiões nas quais uma empresa de TV por assinatura compete com as operadoras de telefonia fixa pelo mercado de acesso à internet, há disputa de preços, o que é bom para o usuário. Mas ele reconhece que a Net consegue ainda chegar a uma pequena parte do território. Ela atende apenas 93 municípios no país. "A Net está onde economicamente interessa", explica.
Ele acredita que o uso da Telebrás é uma das alternativas para universalizar o acesso, mas que não é a mais acertada. O governo deveria contratar serviços da iniciativa privada e incentivar investimentos em mais regiões por meio de benefícios fiscais inteligentes, por exemplo. "Pode ser por meio de financiamento do BNDES a taxa de juros mais competitiva, às quais empresas como as do perfil da Net poderiam se interessar em investir." Outra sugestão seria a de "dar dinheiro à população", em forma de subsídios às tarifas, como alguns municípios fazem com as passagens de ônibus.
Pior, só monopólio privado
"Uma nova estatal serve para gastar dinheiro público e ser ineficiente. Com poucas exceções, como o caso da Petrobras, nossos modelos de estatais são péssimos", critica o diretor de tecnologia da Alog Data Centers, Antônio Pina. "Estatal só não é pior que monopólio privado."
As empresas de data center têm interesse direto em discussoes sobre expansão do acesso no País. Elas cuidam da infraestrutura de tecnologia de empresas de diversos setores e precisam garantir internet aos clientes, por meio de links contratados junto às operadoras.
E Pina vê um risco maior na combinação das propostas do governo com as sugestões das concessionárias. "Está se sugerindo privatizar o lucro e estatizar o prejuízo", afirma. As concessionárias de telefonia ofereceriam a banda larga nos locais de maior potencial e a Telebrás investiria em regiões de pouco ou nenhum retorno. "Seria a desculpa perfeita para não investir onde não há interesse. Elas diriam que não chegam a outros lugares porque não teriam como concorrer com uma estatal."
Qualidade do serviço
Para ele, o governo deveria apenas forçar o investimento privado para a inclusão digital. "Se tivéssemos um órgão regulador forte, não precisaríamos de uma estatal", diz, em crítica à atuação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
"Vejo o plano com bons olhos para o usuário final, mas ele parece uma grande trapalhada", afirma. Segundo uma versão do plano que circulou em janeiro, havia métricas de desconexão. "Mas isso, na banda larga, não existe, como há no acesso por modem, de o usuário não receber o 0K de conexão. Ele pode ficar sem acesso mesmo sem haver a desconexão." A discussão, portanto, não faz sentido.
Esse seria o momento de discutir a real qualidade dos serviços, defende. O Comitê Gestor da Internet está realizando este ano um estudo da qualidade dos serviços, instalando medidores de desempenho de banda larga, para aferir se os planos ofertados no mercado cumprem o prometido de velocidade de acesso. É uma iniciativa de criar métricas confiáveis, já que a Anatel não tem poder em serviços de valor agregado, e a banda larga continua inserida nessa categoria. "Mas hoje ela não é mais um valor agregado. Mesmo o tráfego de telefonia passa por ela", diz. Com essa categorização, a agência não pode punir as prestadoras do serviço a partir das reclamações que recebe.
Tecnologias diversas devem entrar no plano
As empresas que oferecem acesso à internet por meio da rede elétrica podem cumprir um papel complementar no plano de banda larga do governo federal, defende a diretora-geral das empresas de telecomunicações do grupo AES, Teresa Vernaglia. "Como não dá para levar em médio prazo fibra óptica a todo cidadão e não é viável ter 100% do território coberto mesmo nos grandes centros, é preciso ter alternativas tecnológicas", afirma.
Mesmo sem definições do plano, o mercado tem como certo que haverá mais de uma tecnologia envolvida. Mesmo que a Telebrás fique responsável pela gestão do backbone, uma grande rede de fibra óptica que interligue os estados e principais cidades, é provável que as empresas façam a conexão entre municípios e mesmo levem o acesso às residências, escolas e hospitais. E isso poderia ser feito com tecnologias como telefonia celular ou mesmo satélite ou rádio para as regiões mais remotas.
"Podemos ser parte relevante da solução", diz. "Só no Japão existe a pretensão de levar fibra óptica a todos os domicílios. Não vemos como fazer isso a 45 milhões de lares no Brasil", diz a executiva. O grupo AES, por meio das empresas AES Com Rio e AES Eletropaulo Telecom, poderia ampliar sua oferta de acesso em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Vernaglia defende que, para transformar a rede elétrica em uma solução economicamente mais interessante para a popularização do acesso, o governo poderia incentivar a produção de equipamentos localmente.
"Tudo é uma questão de escala", afirma. Para as redes de tráfego de internet por ADSL, que utiliza os cabos de cobre que levam telefonia fixa, há um longo histórico de volume de investimentos, já amortizados no Brasil. Mas os equipamentos para adaptar as redes de energia a trafegar dados e depois traduzirem as informações quando chegam ao destino final são importados hoje de fábricas americanas, asiáticas e européias. Entre as principais fabricantes, estão Sumitomo, Mitsubishi, AscomeDS2. C.E.V.