Luta para não perder força pelo caminho
Grande parte dos esforços de inovação do setor elétrico está em aperfeiçoar a gigantesca rede de transmissão
Pesquisas e inovações são fundamentais no setor elétrico brasileiro, principalmente para reduzir vazamentos nas longuíssimas redes de transmissão, para o controle inteligente da distribuição de energia e para viabilizar fontes alternativas de geração de energia.
Vale observar, logo de início, que as concessionárias privadas ou estatais de energia, por força da lei, investem pelo menos 1% da receita operacional líquida em P&D. Não é exatamente um percentual assim tão expressivo, mas a constância com que os recursos são aplicados tem produzido resultados efetivos. Atualmente, o conjunto dos programas reúne mais de 500 projetos, com aplicação de R$ 647,4 milhões, de acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Levantamento do Grupo de Estudos sobre Organização da Pesquisa e Inovação (Geopi) da Universidade de Campinas (Unicamp), feito no período de 1999 a 2004, indica taxas de retorno dos investimentos de 56%, considerando apenas os 296 projetos que tiveram seus benefícios monetizados.
Um dos maiores alvos das pesquisas é o segmento de transmissão o que no Brasil lembra quilômetros e quilômetros de cabos sustentados por grandes torres num gigantesco território. O desenvolvimento tecnológico nessa área é estratégico, já que as linhas de transmissão tendem a ficar ainda mais longas e custosas com as hidrelétricas na região Amazônica. O objetivo, então, é encontrar soluções para reduzir as perdas de energia, os custos dos empreendimentos e os impactos ambientais, aumentando ao mesmo tempo a capacidade de transmissão, sintetiza Albert Melo, presidente do Centro de Pesquisa em Energia Elétrica (Cepel), responsável por grande parte das pesquisas nessa área. Cerca de 80% do orçamento da Cepel (que neste ano atinge R$ 240 milhões) é alocado na transmissão.
No seu Laboratório de UltraAlta Tensão, em Nova Iguaçu (RJ), o Cepel planeja iniciar brevemente ensaios na tentativa de elevar a capacidade das linhas de transmissão de 765 quilovolts (kV) para 1.100 kV em corrente alternada e de 600 kV para 800 kV em corrente contínua o que significa transportar mais energia com menos perdas.
Outro fator que interfere nas perdas do sistema é a própria extensão das linhas, pois quanto mais longas, maiores os vazamentos. E as linhas de transmissão das usinas do Madeira, em Rondônia, por exemplo, terão 2.400 quilômetros cerca de três vezes acima das mais extensas hoje existentes. Aqui, uma das soluções que tem sido adotada com êxito é a mudança na geometria de instalação dos cabos condutores, já aplicada em 4 mil quilômetros de linhas elétricas. Os ganhos na capacidade de transmissão vão de 40% a 70%, segundo a chefe do Departamento de Linhas e Estações do Cepel, Glória Gomes de Oliveira. O aumento dos custos em relação às linhas convencionais é bem menor, chegando a 30%.
A solução pode ser aplicada também em reformas de linhas já em operação. Essa tecnologia partiu do conceito de linha de potência natural elevada, desenvolvido por pesquisadores russos. O Cepel avançou nas pesquisas laboratoriais e desenvolveu programas computacionais adequados para as análises, aprimorando a tecnologia e, depois, submetendo-a a ensaios de grande porte em sua unidade de Nova Iguaçu antes da aplicação efetiva, conta a pesquisadora.
Além da redução das perdas na rede de transmissão, o Cepel está procurando meios de diminuir as áreas dos corredores onde as torres são instaladas o que pode propiciar expressivos cortes no impacto ambiental.
No que diz respeito ao ambiente, aliás, já é avançada, diversificada e significativa a pesquisa do setor elétrico sobre fontes alternativas de energia. A diversidade é tal que engloba desde o aproveitamento de lixo urbano e biomassa, ventos, sol, até as ondas do mar.
A geradora Tractebel, por exemplo, desenvolve duas pesquisas de fontes alternativas para gerar energia por ondas do mar e com o uso da palha de arroz. Em parceria com a Coordenação de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe), a empresa, controlada pelo grupo GDF-Suez, vai instalar um protótipo de conversor de energia elétrica a partir de ondas nos molhes do Porto de Pecém (CE). Os primeiros testes devem começar em outubro, e a pesquisa prevê a instalação de dois módulos de bombeamento, com capacidade de geração de até 100 mil watts de eletricidade suficientes, por exemplo, para acender cerca de 1.600 lâmpadas.
"É uma proposta inédita, com custo de aproximadamente R$ 15 milhões", assinala o presidente da Tractebel, Manoel Zaroni Torres. Já na pesquisa para o uso da palha de arroz em mistura com carvão mineral, para alimentar as caldeiras das usinas do Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, em Capivari de Baixo (SC), o orçamento é de R$ 6 milhões.
A Neoenergia, que reúne três distribuidoras com atuação no Nordeste, vem apostando na energia solar. Segundo a assessora de eficiência energética do grupo, Ana Cristina Mascarenhas, a instalação de painéis fotovoltaicos no Estádio de Pituaçu, em Salvador, permitirá à concessionária Coelba injetar um volume de energia obtida de fonte solar que vai além da escala piloto. Serão megawatts hora, o que eqüivale ao consumo mensal de um município com 4.600 domicílios. Outro projeto é desenvolvido pela Celpe (de Pernambuco) e envolve o uso de energia solar e eólica, em Fernando de Noronha. Neste caso, a distribuidora firmou parceria com a Agência Internacional para o Desenvolvimento dos Estados Unidos (US-Aid) e quer tornar a geração de energia de Fernando de Noronha, hoje dependente de geradores a diesel e biodiesel, limpa e autossustentável.
A entrada no sistema elétrico de fontes de geração de menor volume e, por isso, em maior número exige atenção ainda mais detalhada no seu gerenciamento. Segundo o presidente do Fórum Latino Americano de Smart Grid, Cyro Vicente Boccuzzi, as pesquisas com redes inteligentes devem aumentar a confiabilidade e reduzir os custos de manutenção das linhas e redes elétricas permitirão detectar problemas com mais exatidão e rapidez, evitando a ocorrência de falhas que causariam interrupção no fornecimento.
O "smart grid", como é chamada essa rede inteligente, ainda pode ser aplicado em processos para redução de fraudes nas linhas de distribuição. Em algumas áreas, as distribuidoras já estão instalando os medidores eletrônicos em caráter experimental, mas com o acompanhamento da Aneel. Mais do que eliminar os "gatos" na rede, a tendência é que esses aparelhos evoluam para o fornecimento de detalhes sobre o consumo de cada unidade. Afinal, o conceito de "smart grid" nasceu com a possibilidade de transmitir dados pela rede elétrica, e nesse caiupo, também aqui no Brasil, já dá resultados práticos.
Um exemplo foi o lançamento, este ano, da primeira oferta comercial de banda larga com a tecnologia BPL (Broadband over Powerline Indoor), que permite conexão à internet por meio de fios da rede elétrica interna do cliente. A operação, por enquanto, é restrita a algumas áreas do município de São Paulo e foi viabilizada depois de três anos de pesquisa e investimento de R$ 20 milhões pela AES Eletropaulo Telecom, empresa de telecomunicações do grupo americano AES. A Intelig é que está colocando o BPL no mercado, já que pela legislação as distribuidoras de energia são impedidas de vender diretamente o serviço podem apenas disponibilizar suas redes para as operadoras de telecom.
Há vários dispositivos para instalação nas redes inteligentes, já disponíveis no mercado, porém a custos ainda elevados. Mas projetos destinados a integrar essas soluções e, com isso, ter parâmetros de referência para obter melhores resultados em vários segmentos da manutenção à redução de perdas e oferta de novos serviços também se encontram em andamento. A Cemig e a Manaus Energia (ligada à Eletronorte) iniciaram este ano o desenvolvimento de projetos piloto nesse campo nas cidades de Sete Lagoas (MG) e de Parintins (AM).
Em Sete Lagoas, o projeto Cidade do Futuro vai envolver uma rede com 95 mil unidades consumidoras. Na ilha fluvial de Parintins, são aproximadamente 15 mil unidades, atendidas por geração térmica a óleo com potência de 25 MW. Com esse projeto, Parintins, em meio à paisagem amazônica, talvez surpreenda novamente e consiga repassar tecnologia para o país, como vem ocorrendo há anos no caso das gigantescas alegorias móveis da festa dos bois Caprichoso e Garantido, que trazem mais movimento e criatividade ao espetáculo das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo.