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Utilities dão os primeiros passos
 

Por TI Inside

 

NO HORIZONTE HÁ DOIS POSSÍVEIS CAMINHOS: A CONSTRUÇÃO DE UMA REDE PRÓPRIA OU A PARCERIA COM OPERADORAS DE TELECOM. OU AINDA UMA COMBINAÇÃO ENTRE AS DUAS OPÇÕES.

O conceito de smartgrids, que é a evolução das redes de energia elétrica para uma rede inteligente, está em alta em todo o mundo; mas, na prática, a convergência desse mundo com o setor de telecomunicações ainda não está bem clara. Muitos pontos ainda carecem de definição. O fato é que será um processo de médio a longo prazo e, como não existe um padrão consolidado, a tendência é a de que cada país tenha uma solução própria em relação à sua realidade regulatória. Outro ponto pacífico é que a implantação de uma rede elétrica inteligente demandará vultosos investimentos na troca dos equipamentos para tornar realidade os benefícios com relação à eficiência energética, à flexibilidade de tarifas e ao aproveitamento energético, como no caso da geração distribuída, do carro elétrico e de fontes alternativas de energia.

Para se ter uma idéia, os custos amais de medidores inteligentes, que permitem ao operador de energia acompanhar em tempo real o uso de energia pelo consumidor, variam de de R$ 500 a R$ 1 mil cada, um montante mais do que significativo quando se tem no horizonte mais de 65 milhões de medidores instalados no Brasil. Fora o custo de preparar a infraestrutura para que as informações sejam transmitidas e processadas.

Para que tudo isso seja possível é preciso uma infraestrutura robusta de telecomunicações para suportar a automação da rede elétrica com a comunicação entre os vários dispositivos inteligentes da rede com as subestações de energia e as casas dos usuários, e ainda a prestação de novos serviços para o usuário final, como serviços de monitoramento e segurança ou mesmo automação residencial, com controle de temperatura e iluminação, por exemplo. A terceira frente de investimentos será em sistemas de TI capazes processar, registrar e operar essa avalanche de informações.

O Brasil começa agora a dar os primeiros passos em direção à evolução de suas redes elétricas para smartgrids. Em meados de abril, o Ministério de Minas e Energia anunciou a criação de um grupo de trabalho para definir, até novembro, diretrizes para uma política pública para um programa nacional de redes de energia inteligentes (ver matéria na pág. 22). E, na opinião do presidente da Associação de Empresas Proprietárias de Infraestrutura e de Sistemas Privados de Telecomunicações (Aptel) e chefe de gabinete da presidência da Eletrobras, Pedro Jatobá, "as operadoras de telecomunicações tradicionais serão fatalmente envolvidas na discussão e precisam enxergar o setor de energia como um grande setor de oportunidade e de negócios".

Dois caminhos

As elétricas poderão seguir dois caminhos distintos na implantação de uma infraestrutura de telecomunicações para atender a essa rede inteligente de energia: investir em uma rede própria ou fazer parceria com uma operadora tradicional de telecomunicações, ou ainda uma combinação das duas opções.

O investimento em uma infraestrutura própria de telecomunicações não é novidade para o setor elétrico. Jatobá lembra que as primeiras redes de telecom das elétricas nasceram de uma incompatibilidade sobre os requisitos de uma rede para atender às necessidades de integração dos diversos sistemas regionais e de automação das linhas de transmissão da Eletrobras há duas décadas, quando ambos os setores ainda eram estatais. "A Embratel havia se proposto a construir uma rede para atender a Eletrobras, mas não houve entendimento sobre os requisitos da rede, como disponibilidade e garantia de serviço. Assim, a opção foi pela construção de redes próprias", conta.

Dessa forma, praticamente todas as elétricas de transmissão possuem em algum nível redes de telecomunicações associadas, geralmente redes metropolitanas de fibra óptica que fazem a comunicação entre as subestações de energia e os centros de operação das empresas. Algumas dessas redes, inclusive, deram origem a importantes empresas de telecom, capazes de vender capacidade de rede para operadoras de telefonia fixa, móvel e provedores de serviços, como a AES Eletropaulo Telecom, a Copei Telecom e a Cemig Telecom, apenas para citar alguns nomes.

Essas redes metropolitanas em fibra óptica, no entanto, não são, no que se refere à infraestrutura de telecomunicações, nem de perto suficientes para permitir a migração das elétricas para smartgrids. Isto porque ainda seriam necessários investimentos vultosos para construir a última milha aos usuários finais e conectar os mais de 65 milhões de domicílios com medidores de energia no Brasil. Vale destacar ainda que a regulamentação atual do setor elétrico incentiva as empresas a fazerem investimentos em ativos. "Uma vez que o investimento é reconhecido pela agência reguladora, a empresa é remunerada pela tarifa. Claro que isso não significa que o consumidor vá pagar por toda infraestrutura para suportar smartgrids, mas com incentivos governamentais e mudanças no ambiente regulatório é possível chegar a uma solução", avalia Jatobá.

O segundo caminho, em uma primeira avaliação, seria o mais lógico. Uma parceria com operadoras de telecomunicações que já têm essa última milha instalada, através de tecnologias fixas ou móveis, pouparia as elétricas de desembolsar grandes quantias na construção de uma infraestrutura própria. Mas é exatamente nesse ponto que se encontra um problema: a ausência de controle sobre esta rede terceirizada. "Se as operadoras de telecomunicações quiserem entrar nesse negócio, não podem atender às empresas elétricas como atendem aos clientes tradicionais. É um outro negócio. Precisamos de disponibilidade, de uma QoS para requisitos industriais. Se for para nos atender como atendem a um cliente comercial, esqueça. Nós vamos construir a nossa (rede)", adverte Jatobá.

O gerente da divisão de estudos elétricos da Copei, Júlio Omori, concorda: "Esse meio de comunicação tem de ter uma confiança superior à normal. Trabalhamos com energia em alta tensão e, na hora em que formos estabelecer a comunicação de um ponto com outro da rede, ela precisa atender a certos requisitos de tempo e de disponibilidade", explica.

De uma maneira geral, cada uma das empresas de energia tem predileção por um dos dois caminhos, mas ninguém ainda bateu o martelo. Essa definição só deve acontecer após a divulgação das diretrizes gerais do aguardado programa nacional de redes elétricas inteligentes e da conclusão dos estudos internos realizados pelas elétricas. "Estivemos analisando as outras concessionárias e o que verificamos é que elas ou não têm um parceiro forte na área de telecom ou não encontraram uma maneira de viabilizar esse negócio. Estão pensando em iniciar seu próprio braço de telecomunicações", afirma Omori.

No caso da Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Grande do Sul (CEEE), a concessionária está dando início agora aos seus estudos sobre os custos e as possibilidades de migração para smartgrids e, segundo o coordenador de TI do grupo, Paulo Porto, uma equipe está, inclusive, prospectando a eventual criação de uma empresa de telecomunicações.

Para a Copei, concessionária de energia elétrica do estado do Paraná, a evolução das redes de energia para smartgrids terá papel fundamental para o futuro dos negócios de seu braço de telecomunicações, a Copei Telecom. E ao que tudo indica a empresa deve apostar em uma infraestrutura própria de telecomunicações, inclusive na última milha.

A Copei já tem alguns medidores inteligentes instalados em grandes clientes de alta tensão e está usando a tecnologia GPRS para a comunicação até o ponto de acesso de fibra óptica de sua rede. O executivo ressalva, contudo, que a utilização das redes das operadoras celulares na última milha tem problemas de confiabilidade, uma vez que a empresa de energia não tem o controle de prioridade da rede. "Precisaremos de pontos de conexão com os dispositivos e nossa idéia é aproveitar a rede de fibra óptica da Copei Telecom, que hoje já faz a automações das subestações. Inicialmente, nosso plano é que todos os consumidores atendidos em alta tensão, os grandes consumidores industriais, sejam supridos com telemedição por fibra óptica; assim, com medidores inteligentes e a conexão em fibra, poderemos fornecer alguns serviços de telecomunicações para o usuário final", revela Omori, que é o coordenador do grupo de smartgrid da Copei. Ele detalha que a idéia da concessionária é implantar um ponto de fibra óptica de alta confiabilidade a cada 100 medidores e 50 dispositivos de rede. "A partir desse ponto, teríamos concentradores e estamos estudando várias tecnologias de acesso para fazer a comunicação entre eles e os medidores inteligentes, os dispositivos de rede e os futuros geradores de energia". Entre os novos serviços estão a oferta para o cliente do sensoriamento do consumo de energia dentro da casa, monitoramento e controle de segurança patrimonial e mesmo automação residencial, com controle de temperatura, luminosidade, segurança, e alertas de vazamento de gás ou incêndio.

A aposta mais alta da Copei no momento para chegar à casa dos clientes é a construção de uma rede WiMesh, que de maneira simplista pode ser explicada como uma malha de hotspots WiFi na qual os roteadores funcionam como repetidoras criando assim diversas rotas de comunicação. "Assim, se um medidor não se comunica com outro, a rede WiMesh busca rotas alternativas até chegar ao ponto concentrador conectado à fibra óptica, que levará a informação para o nosso centro operacional". Na seqüência das preferências da Copei vêm as tecnologias de acesso sem fio via rádio ou mesmo uma parceria com uma operadora de telefonia celular. Nenhuma tecnologia de acesso ainda foi descartada, entretanto.

Outra possibilidade sendo estudada pela Copei é a tecnologia Broadband over Power Lines (BPL), uma evolução da Power Line Communication (PLC) que vem sendo testada em um projeto-piloto com 40 usuários no interior do Paraná. Os testes iniciados no ano passado, segundo Omori, apontam ainda alguns pequenos problemas de interferência eletromagnética de sinais na comunicação, mas de maneira geral funciona bem. O padrão Zigbee, um conjunto de especificações para a comunicação wireless entre dispositivos eletrônicos a curta distância, também poderá ser uma alternativa. "O Zigbee é uma tendência para automação residencial, com uma série de vantagens, mas ainda não fomos muito a fundo porque não está entre as nossas prioridades."

De acordo com os estudos iniciais da Copei, o custo estimado para uma migração para smartgrid no Paraná em um nível inicial, sem cobrir áreas rurais nem baixa renda, passa dos R$ 5 bilhões. Um grande passo em direção a concretização da evolução das redes da Copei está prestes a ser dado. A concessionária deve anunciar em breve o nome da cidade na região metropolitana de Curitiba que será seu piloto de smartgrid, com implantação em 100% dos domicílios. "Será o nosso campo de testes e o abriremos para fornecedores de equipamentos de energia e de telecomunicações que quiserem fazer testes em conjunto com a Copei", afirma. Faltam acertar os últimos detalhes com os cerca de dez fornecedores nacionais e internacionais, das áreas de energia e telecomunicações, que participarão dos primeiros testes. Mais do que o piloto de rede inteligente, a cidade será o campo permanente de testes para toda nova tecnologia para a Copei.

Carrier de carrier

Há também quem sinalize não pretender deixar o modelo de carrier de carrier para entrar na briga pela oferta de serviços diretamente para o usuário final. É o caso das empresas de telecomunicações do Grupo AES. "Somos um provedor neutro de serviços de rede e circuito especializado para operadoras de telefonia fixa, móvel e provedores de serviços como call center, data center e ISPs. Não vamos prestar o serviço para o usuário final. Nosso modelo é prover a infraestrutura para provedores de serviço atenderem a seus usuários através da nossa rede", garante o diretor de operações AES Com Rio e da AES Eletropaulo Telecom, Emerson Hioki.

A recente parceria anunciada em março entre a AES Eletropaulo Telecom e a Intelig, agora TIM, reflete esse posicionamento estratégico no qual a primeira entrou como a fornecedora de infraestrutura e a segunda, como a provedora do serviço de banda larga e telefonia com a tecnologia BPL. "A AES Eletropaulo Telecom nos procurou com a proposta de oferecer uma última milha em três bairros de São Paulo através da combinação de duas tecnologias: um anel de fibra óptica, que chegava até 300 prédios pré-selecionados, que atendiam a requisitos técnicos mínimos de qualidade das instalações elétricas, e BPL Indoor", conta o diretor comercial da Intelig, Alexandre Torres. A solução de BPL Indoor transforma o sinal óptico em elétrico, que é injetado através do relógio do cliente de tal forma que esse sinal pode ser recuperado através de um modem plugado em qualquer tomada do cliente. Mas tratase da oferta pura e simples de um serviço de telecom pela rede elétrica, e não de um serviço de rede inteligente.

"Fizemos uma meta para o primeiro mês e a atingimos, e a expectativa agora é de expansão geográfica", revela Torres. Estudos de geomarketing estão sendo realizados de forma a conciliar os interesses da Intelig com os interesses da AES. "O ideal é que a gente vá para locais onde já exista uma base de telefones TIM e que também tenha um bom consumo de energia elétrica. Estamos em uma fase de cruzar as bases e teremos novidades no segundo semestre deste ano".

Evidentemente, não é porque as empresas de telecom do Grupo AES não prestarão o serviço para o usuário final que não terão papel fundamental na evolução da companhia elétrica para uma rede inteligente. Nem mesmo está descartada a expansão dessas redes metropolitanas de fibra óptica até a última milha, se assim o Grupo AES definir para atender as necessidades da Eletropaulo. As opções são as mesmas para chegar até o usuário final: investir na construção da infraestrutura de última milha ou chegar com parcerias com operadoras de telecomunicações.

"Analisando sobre a ótica de custos, o modelo que mais temos visto é o sistema sem fio em uma solução de complementaridade conectando o backhaul de fibra óptica até o centro de medição do cliente", comenta Hioki. Segundo ele, o grupo já está desenvolvendo estudos para avaliar os investimento para arcar sozinha com os custos de montar uma infraestrutura de telecomunicações dentro da casa de cada usuário e que o resultado está da casa dos bilhões.

As redes metropolitanas de fibra da AES estão bastante capilarizadas, chegando bem próximas às casas dos usuários. "Nossa rede está muito desenvolvida para para atender operadoras de celular, estruturas corporativas, data centers e, ultimamente, com a parceria com a Intelig/TIM, residências. A partir daí, são várias possibilidades em estudo para a última milha, desde wireless e BPL até chegar com fibra à casa do usuário, se for economicamente viável", explica Hioki.

A escolha da tecnologia vai depender do tipo de serviço a ser prestado. "Se for apenas para a medição do consumo de energia, uma solução wireless até atende bem. Mas se através desse meio de comunicação forem prestados outros tipos de serviço, como segurança, automação residencial, vigilância, conectividade, voz e vídeo, isso vai demandar uma tecnologia mais apropriada".



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